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Os desafios de elaborar uma Representação Política digital

Cláudio André de Souza

19 de março de 2019 | 16h25                                                                                                                                                                                                                                                     

Há algum tempo, temos tido um esforço acadêmico considerável para entender quais são os limites e os desafios da política em escala global e de que forma é possível vivermos em um modelo de democracia que não condene a priori as instituições representativas, mas reconheça formas de potencializar o caráter da representação.

Em 2006, foi publicado no Brasil um artigo seminal [1] com considerável repercussão no meio acadêmico brasileiro, escrito por Nadia Urbinati (Universidade de Columbia), no qual a cientista política entende que a representação política é um processo circular (suscetível ao atrito) “entre as instituições estatais e as práticas sociais. Como tal, a democracia representativa não é nem aristocrática nem um substituto imperfeito para a democracia direta, mas um modo da democracia recriar constantemente a si mesma e se aprimorar”.

O caminho prático tomado pelas democracias representativas tem sido por meio do debate em torno da necessidade de conectar mandatos eletivos às características mais relevantes dos eleitores, gerando, assim, representantes cuja sua essência ideológica e de perspectiva social sejam semelhantes aos representados e que deliberem considerando o que é de interesse dos representados.

As experiências de democracia virtual criadas pelo mundo afora [2] reconheceram a importância de dar algum tipo de legitimidade política “deliberativa” para os representados, tornando-os em parte protagonistas dos debates preliminares ao processo decisório. Dentro das redes sociais, termos um político com milhares de seguidores, não garante em si a criação de um processo interativo com os seus respectivos eleitores. Sem um processo decisório que garanta poder aos cidadãos, estes podem virar meros espectadores da política institucional.

Com uma taxa de renovação de 87% no Senado e 53% na Câmara dos Deputados, o novo Congresso Nacional, que começou a sua legislatura há poucas semanas, é formado por cerca de 20% de digital influencers (influenciadores digitais).

Nesta direção, a mais recente pesquisa da FSB influência Congresso sobre os parlamentares mais influentes nas redes sociais do país revelou que temos hoje uma série de representantes políticos digitais. O levantamento atribuiu peso às redes sociais de cada congressista considerando quantidade, o alcance das publicações, o número de seguidores e o engajamento.

No ranking, Joice Hasselmann (PSL-SP) aparece em primeiro com 65,8 pontos, enquanto o 2º lugar, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), tem 39,8 pontos. Em seguida, vem o Sargento Fahur (PSD-PR), com 26,1 (confira na tabela abaixo). [3]

A pesquisa revela que entre os dez parlamentares mais influentes nas redes, seis são novatos, o que indica um novo tipo de estratégia política, o de angariar seguidores como “trampolim” eleitoral e de forma de fazer política, a que chamaremos aqui de representação política digital.

Em relação aos partidos políticos, percebe-se a ocupação das redes sociais como forma de divulgações das posições dos partidos, mas também de contato e orientação com os filiados, dirigentes e políticos com mandato. A mesma pesquisa percebeu esta tendência e monitorou as postagens dos partidos durante vinte dias do mês de fevereiro (veja no gráfico a seguir).

O PT foi quem mais fez postagens nas redes sociais. Os parlamentares analisados na pesquisa fizeram cerca de 44,4 mil publicações no Facebook, Twitter e Instagram. Os petistas foram responsáveis por 21,1% delas, seguidos pela bancada do PSL (12,6%) e do Podemos (5,6%), revelando que as redes sociais ainda são um desafio para as organizações partidárias, como é o caso do PSDB (4,2%), que nas últimas duas décadas, exceto a última eleição, disputou com chances de vitória todas as eleições presidenciais.

Quanto às postagens com interações de todos os partidos (ver gráfico abaixo), o PSL ficou em primeiro com 46,5% e muito acima dos demais partidos, como o PT que ficou em segundo (7,6%) e o PSOL em terceiro (6,5%).

Com a quantidade de parlamentares com espaço nas redes sociais, o PSL parece dominar uma forma de representação política que está longe de configurar uma nova estratégia de organização dos mandatos parlamentares e de processo político de tomadas de decisão, no entanto, o partido parece assumir uma estratégia de mobilização societária que tem como centralidade as redes sociais, o que não deixa de ser um marco na maneira de construir uma militância político-partidária.

Além disso, o partido parece conduzir nas redes sociais um espaço de “recrutamento” e de projeção de novas carreiras política, o que poderá ficar mais evidente com as eleições municipais de 2020.

A representação política digital é um conceito para operarmos análises do quanto as redes sociais estão se tornando um locus estratégico objetivo na condução dos mandatos e na interação com eleitores. Mesmo com as fake news e os excessos nas performances de alguns “políticos 2.0”, o contato constante entre eleitores e eleitores não é o que desejamos em uma democracia representativa?

[2] Acesse este link e leia o especial Cadernos da Konrad sobre democracia virtual.

[3] Os gráficos e tabelas foram retiradas desta matéria do Poder360:

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